Os dilemas da transição energética: o que significa ser justa? Qual o papel dos litígios?

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A humanidade enfrenta uma tarefa urgente: transformar os sistemas energéticos para gerar energia sem continuar a poluir a atmosfera com gases de efeito estufa e outros poluentes. Este é um fato comprovado cientificamente. Se não o fizermos, nosso planeta deixará de ser um refúgio seguro para a humanidade e muitas outras espécies.

 

O problema é que a transição necessária está longe de ser simples. Além da dificuldade de romper com a nossa dependência dos combustíveis fósseis que nos dominaram durante séculos, não basta qualquer transição. Não se trata simplesmente de deixar de queimar esses combustíveis; devemos considerar muitos outros fatores, mesmo além da energia, para nos afastarmos de um modelo de desenvolvimento que, durante séculos, dividiu a humanidade entre vencedores e perdedores, violando também os direitos humanos.

 

O que é, afinal, uma Transição Justa?

 

Atualmente, não existe um conceito único que defina o que constitui uma transição energética justa. Na AIDA, acreditamos que, para ser justa, a transição deve ser equitativa e inclusiva, reconhecendo que os impactos das mudanças climáticas e da transição necessária não são distribuídos igualmente. Assim, certos grupos — como aqueles que trabalham nos setores de energia tradicionais e/ou comunidades marginalizadas — podem ser afetados de forma desproporcional.

 

Para entender o problema, é importante reconhecer que a humanidade enfrenta atualmente diversas crises interligadas que afetam a vida e o bem-estar das pessoas, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade. A emergência climática, a poluição, a perda de biodiversidade, as pandemias globais e as crises democráticas são apenas algumas delas. E no cerne de tudo isso está a desigualdade social, o abismo cada vez maior entre ricos e pobres que gera disparidades em todos os aspectos da vida, incluindo o acesso à saúde, à educação e às oportunidades econômicas.

 

Essas crises estão interligadas e se reforçam mutuamente. As respostas a uma podem ajudar a resolver outras, mas também podem agravá-las.

 

Por exemplo, quando a transição para fontes de energia limpa não só ajuda a combater as alterações climáticas, como também reduz a poluição atmosférica e melhora a saúde pública, estamos a resolver dois problemas de uma só vez. Um exemplo contrastante ocorre quando uma transição rápida e descontrolada para a mobilidade elétrica resulta na extração desenfreada de minerais raros como o lítio, que provém de ecossistemas frágeis dos quais as comunidades locais dependem.

 

Então, por onde começamos?

 

Para garantir uma transição justa, devemos nos guiar pelos princípios da justiça, equidade e inclusão, bem como assegurar que as populações mais vulneráveis não sejam afetadas de forma desproporcional.

 

Como Naomi Klein afirmou em seu livro "This Changes Everything" (Isto Muda Tudo ), para enfrentar a crise climática, precisamos entender que a mudança climática não é apenas um problema ambiental, mas também uma questão de direitos humanos. Uma transição energética justa exige não apenas o fim da queima de combustíveis fósseis, mas também o combate à desigualdade econômica, a incorporação de uma perspectiva de gênero, o fortalecimento das redes de proteção social, a proteção dos direitos dos trabalhadores, o respeito aos direitos dos povos indígenas, o empoderamento das comunidades para que participem das decisões que afetam suas vidas e a reparação daqueles afetados pelo atual modelo econômico e energético.

 

E qual o papel que os processos judiciais podem desempenhar?

 

O litígio já está acompanhando os dilemas da transição energética. Assim, temos visto um aumento de ações judiciais que parecem contrariar a transição energética, como as que contestam projetos de geração de energia renovável ou regulamentações que favorecem a transição, ou que a dificultam. Mas podemos afirmar que essas ações são sempre “regressivas”?

 

Um processo judicial contestando a licença ambiental para um projeto de geração de energia eólica pode estar dificultando a transição, mas não é necessariamente um retrocesso. Se, por exemplo, for um megaprojeto realizado por uma corporação transnacional que exportará toda a energia gerada sem beneficiar as comunidades locais, e se também pretender ser localizado em terras indígenas sem participação local, então é um projeto voltado para uma "transição injusta" que não atende às nossas necessidades porque reforça o próprio modelo que nos levou pelo caminho errado.

 

Esse tipo de caso é abordado no relatório "Litigation for Just Transition in Latin America " (Litígios por uma Transição Justa na América Latina), publicado em janeiro de 2023 pelo Sabin Center for Climate Change Law da Universidade Columbia e traduzido para o espanhol pela AIDA.

 

O relatório questiona o propósito dos litígios sobre transição justa, indagando se eles fomentam ou, inversamente, obstruem uma transição energética resiliente às mudanças climáticas. Nesse sentido, seus autores concluem que tais litígios não podem ser categorizados como regressivos ou não regressivos em relação à transição. Assim, consideram os litígios sobre transição justa uma nova categoria de litígio climático, com fundamentos próprios, distintos e únicos.

 

Este tema permite-nos refletir sobre a complexidade da tão aguardada transição energética. Perante este tipo de dilemas, na AIDA optamos geralmente por analisar cada caso individualmente, sem aderir a uma posição dogmática. Mas uma constante, e neste sentido um ponto de partida valioso, é que tudo o que for feito em prol da transição energética — sejam projetos, políticas ou ações — deve ter um foco forte e decisivo no ambiente, nos direitos humanos e na igualdade de género. Sem estes princípios, não há justiça; e sem justiça, não há remédio nem solução.

 

Assim, acreditamos que o litígio tem um papel a desempenhar, não só para que a transição aconteça, mas também para que seja justa.

 

A necessidade urgente de mudar nossos sistemas energéticos é também uma oportunidade para construir um novo sistema que, ao contrário do que vigora hoje, nos una e seja para todas as pessoas e seres vivos do planeta.

 

Continuaremos, então, a utilizar o recurso à ação judicial para contestar as tentativas de transição que buscam nos envolver em mais do mesmo.

 

Texto escrito por Florencia Ortúzar Greene - diretora do Programa de Clima da Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente (AIDA)

 

Tema
Combustíveis fósseis
Proteção ambiental
Violação dos direitos humanos